Mesmo com onda de assaltos, prédios falham na segurança

Cartaz oferece recompensa por informação A onda de assaltos e arrombamentos a prédios em várias regiões de Juiz de Fora tem assustado moradores e levado os síndicos a investirem em mais segurança, na tentativa de barrar os criminosos. Apesar do alerta, especialistas e a polícia apontam muitas falhas nos edifícios, o que facilita a entrada

A onda de assaltos e arrombamentos a prédios em várias regiões de Juiz de Fora tem assustado moradores e levado os síndicos a investirem em mais segurança, na tentativa de barrar os criminosos. Apesar do alerta, especialistas e a polícia apontam muitas falhas nos edifícios, o que facilita a entrada de suspeitos. Para verificar a situação, a Tribuna testou a segurança em 12 condomínios localizados no Centro e nos bairros Estrela Sul, Bom Pastor, Passos, São Mateus, Paineiras e Santa Helena. Dos 12, conseguiu acessar facilmente dez deles. Em oito, a entrada do carro foi liberada de imediato, mesmo sem o veículo da reportagem estar identificado. Em outros dois, a equipe, também sem identificação, conseguiu que o porteiro abrisse o portão de entrada social. Somente em dois, a Tribuna foi barrada antes de entrar no estacionamento ou nas dependências dos edifícios. O teste de segurança nos imóveis repercute ainda mais diante da ocorrência do último sábado, quando cinco bandidos armados invadiram a galeria do Braz Shopping e do Minas Flat localizado no mesmo local, que conta com funcionários nas portarias 24 horas e circuito de vigilância eletrônica.

Durante o teste, falhas nas portarias ficaram evidentes. Em um condomínio de alto luxo no Bairro Estrela Sul, Zona Sul, a reportagem chegou a pé e encontrou o portão de pedestres aberto. Em outro prédio, no Santa Helena, região central, alvo recente de ladrões, apesar de o contato com o porteiro ter sido realizado apenas pelo interfone, a reportagem conseguiu que ele abrisse o portão de entrada após chamá-lo. No Bom Pastor, na Zona Sul, o portão de um residencial que passa por obras já estava aberto. Quando a equipe da Tribuna parou de carro em frente à entrada, o portão foi fechado, mas bastou o condutor buzinar para ele ser reaberto. A reportagem entrou e, só dentro da garagem, foi abordada. O teste foi repetido da mesma forma em outro condomínio, no mesmo bairro. Neste, o jornal conseguiu entrar pelas duas portarias, em vias distintas. Os dois porteiros agiram da mesma forma: abriram o portão e só questionaram a equipe depois que o veículo já estava parado no pátio do residencial.

Já em um condomínio na Rua Severino Meireles, Passos, bastou embicar o carro na entrada para que a grade fosse aberta. No Bairro São Mateus, na rua de mesmo nome, a reportagem aproveitou a chegada do carro de um morador e entrou em seguida. Só depois de três minutos estacionado no espaço para visitantes, a equipe foi abordada pelo porteiro, que, neste momento, anotou a placa do veículo. Na Rua Padre Café, os portões de entrada e saída de um residencial estavam totalmente abertos, facilitando o acesso.

Ainda no mesmo bairro, na Rua Érico Veríssimo, a tentativa de entrar em um condomínio foi frustrada. Apesar de parar o carro de frente para a garagem, o portão permaneceu fechado. Até a conversa com o porteiro aconteceu através das grades, também sem a abertura do acesso para pedestres. Entretanto, durante a conversa, um entregador chegou de moto, e a entrada foi permitida de pronto. Indagado, o porteiro se explicou: “É porque ele vem aqui com frequência. Já o conheço. Mas geralmente só converso com quem não conheço pelo interfone, e todos os entregadores têm que apresentar identidade”, contou o porteiro, 37 anos.

No Paineiras, novamente o acesso foi barrado. Em um condomínio na Olegário Maciel, a entrada do carro foi impedida. Mas, em um segundo residencial na mesma via, o portão estava escancarado, facilitando o ingresso. Questionada, a síndica tentou explicar. “Hoje o portão deu defeito no motor, mas geralmente fica fechado. Só entram carros de moradores identificados com um selo.” Em outro condomínio, na Rua Santo Antônio, e em outro vizinho, na Alameda Sir Winston Churchill, no Centro, o carro da reportagem entrou e saiu sem ser interceptado.

Síndicos de alguns dos edifícios foram procurados e reconheceram as falhas. A Tribuna fez contato com o Sindicato dos Empregados em Edifícios, mas não obteve retorno. Assessor de comunicação organizacional da PM, major Paulo Alex Moreira, ressalta que profissionais mal treinados aumentam a vulnerabilidade. “A pessoa que era para impedir a entrada de violência, acaba potencializando. É preciso que os condomínios estejam atentos para a contratação de pessoas preparadas tecnicamente.” Ainda segundo o major, a PM está à disposição dos condomínios prediais para a realização de trabalho preventivo junto aos funcionários. No Rio de Janeiro, porteiros e síndicos já são treinados pela polícia para evitar assaltos a prédios. Em Belo Horizonte, uma rede de comunicação via rádio se espalha entre porteiros e vem ajudando na prevenção dos assaltos. Um repassa a informação para os outros sobre os suspeitos que estão rondando os edifícios.

 

Conduta

Consultor em segurança, Dempsey Magaldi ressalta que a falha humana é um dos fatores que mais contribuem para furtos, roubos e arrombamentos. “Isto se deve à falta de critério e conduta equivocada adotada por pessoas que ignoram alguns riscos geralmente por desconhecê-los ou por desleixo. Porteiros, empregados domésticos e até os filhos são exemplos dos agentes que mais cometem erros, fornecendo informações ou deixando de observar condutas preventivas. Normas e procedimentos de segurança devem ser discutidas e implementadas para reduzir o grau de riscos e ameaças verificados no dia a dia. Além disso, é preciso treinamento. Tudo que aprendemos na vida, seja uma língua estrangeira, um esporte ou até mesmo o ofício de segurança, deve preceder de um treinamento regular. Tal treinamento deve ser aplicado ao profissional que usa arma de fogo, faz defesa pessoal ou até mesmo àquele que desenvolve suas operações de rotina, como em portarias de empresas e condomínios.”

‘Não queremos que o episódio se repita’, diz síndica de flat

No caso do bando que rendeu seis pessoas no Braz Shopping e no Minas Flat, na madrugada do último sábado, um veículo com placa de Osasco(SP) parou em frente à garagem, na Rua Espírito Santo, e o condutor disse que iria ao flat. No relato à PM, o próprio porteiro contou que abriu a cancela. Já dentro do prédio, três funcionários e três moradores foram rendidos. O recepcionista do residencial chegou a ser amarrado, e um dos moradores teria sido agredido com coronhadas. Todos ficaram presos no banheiro durante a ação que durou cerca de uma hora. Com ajuda de maçarico, os bandidos arrombaram os dois caixas eletrônicos instalados na área do shopping. O carro usado na ação, um Citroen C3, que tinha a placa clonada e o chassi adulterado, foi localizado pela PM, no Bairro Poço Rico, região Sudeste, ainda na madrugada de sábado.

Para a síndica do flat, que funciona no mesma edificação do shopping, Tânia Victor, a ação teve como foco os caixas eletrônicos, mesmo assim, provocou insegurança entre os moradores. A síndica ainda explicou que a liberação de entrada aconteceu na entrada do shopping. “Temos duas portarias, mas a entrada da garagem pertence ao shopping, cabendo a eles agir. O funcionário do flat foi rendido, pois os bandidos já estavam dentro do prédio. Mas acredito que, mesmo se o porteiro tivesse negado o acesso, eles teriam entrado, pois estavam armados. Esses bandidos não são parados por portaria, nem inibidos por câmeras. Tudo em relação à segurança nós fizemos. O que vamos formalizar agora é a nossa insatisfação com a permanência dos caixas eletrônicos no shopping. Não queremos que esse episódio se repita.” O síndico do shopping foi contatado, mas não retornou a ligação.

A delegada que investiga o caso, Mariana Veiga, titular da 7ª Delegacia Distrital, confirmou que, pelo modo de ação, o foco dos assaltantes eram os caixas eletrônicos. Entretanto, ela alerta para a necessidade de prevenção. “Existem muitas falhas, de fato, nos condomínios. O sistema de monitoramento é de grande valia para depois, para desvendar os crimes, mas é preciso que os síndicos invistam na prevenção, que aprimorem o sistema de apuração para o ingresso nesses edifícios.”

 

Cresce medo entre os moradores

A migração dos assaltantes das casas para os edifícios tem sido percebida em várias regiões de Juiz de Fora. A Tribuna solicitou à Polícia Militar o índice de roubos e também de furtos a prédios, mas, por problemas técnicos, a estatística não pôde ser consolidada. Entretanto, a frequência de ocorrências chama a atenção. Entre moradores de apartamentos, o medo de ataques cresce a cada dia. Muitos foram feitos reféns e outros saíram machucados nos últimos anos.

No último dia 4, um professor de 46 anos foi rendido entrando no prédio em que mora, no Cascatinha, Zona Sul. Dois assaltantes seguraram o portão da garagem e entraram no estacionamento. O dono do veículo teve que conduzir o carro em direção ao Bairro Aeroporto, sob a ameaça dos assaltantes. Um dia depois, um casal de namorados, 25 e 26, também foi rendido por um trio, que levou o veículo de frente da garagem do prédio da jovem, no Jardim Glória, região central.

O número de arrombamentos também tem disparado. Um jornalista de 56 anos teve o apartamento invadido enquanto dormia no último dia 10, na Rua Oswaldo Aranha. Os ladrões roubaram o notebook e a máquina fotográfica. “Não temos segurança. Tive minha vida levada de dentro da minha casa. Eu tive que colocar cartazes pelo bairro oferecendo recompensa de R$ 2 mil na tentativa de ter meu computador de volta porque a polícia não age.”

De acordo com o assessor de comunicação organizacional, major Paulo Alex Moreira, a PM está intensificando a abordagem de suspeitos e trabalhando, por meio do georreferenciamento, a possível migração dos crimes. Ainda segundo o major, é importante também que os próprios moradores adotem medidas protetivas.

 

 

Controle do acesso por meio de cartão

Na tentativa de evitar a violência, os condomínios buscam auxílio nos dispositivos de segurança. A procura por cercas elétricas e concertinas (espiral cortante instalado em cima dos muros) cresceu mais de 40% nos últimos meses. “Quando você cria dificuldades, os ladrões vão para outros lugares. Tenho clientes que deixaram de investir em reforma para colocar os equipamentos”, disse a sócia-gerente da Telas Tupi, Renata Carvalho. A procura pelas câmeras também cresceu entre 50% a 60% nos últimos meses, segundo o sócio-gerente da Segmax, José Cláudio Moreira.

Mas a tecnologia mais recente é um sistema de controle de acesso por meio de cartão magnético. Segundo a gerente administrativa da Metro Quality, Renata Ribeiro, o modelo é atualmente o mais seguro no mercado. “O controle de acesso é inviolável, pois o cartão tem um chip, com um número único, tipo um código de barras. Aquele mecanismo de controle remoto tinha uma frequência que estava sendo facilmente copiada pelos bandidos.”

Apesar de o custo variar entre R$ 4 mil a R$10 mil, quem adotou o sistema em portarias ou garagens aprova. “É muito mais seguro. Cada morador tem o seu cartão. A entrada da garagem também se fecha em segundos, e colocamos ainda a fechadura magnética. Com isso, o portão de entrada tranca sozinho em sete segundos”, contou a síndica de um prédio no São Mateus.

Fonte: Tribuna de Minas – https://tribunademinas.com.br/noticias/cidade/21-05-2013/mesmo-com-onda-de-assaltos-predios-falham-na-seguranca.html

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